sábado, 12 de março de 2011


Passados alguns dias do evento, mas com tais fatos ainda bem nítidos em mente remeto-me aquele exato momento que, parecendo um tranquilo, rotineiro e até agradável final de tarde de sexta-feira do dia 25/02, estava ao terminal de vendas em um centenário sobrado da Cidade Baixa pensando no "nada", rodeado de medicamentos, shampoos e clientes, porém ouvi um "ronco" de motor e em instantes presenciei através da vidraça do meu trabalho cenas em primeira mão que, (graças aos avanços tecnológicos puderam ser capturadas e divulgadas a público, repercutindo assim nos "quatro cantos do planeta") o que um ser humano pode fazer com um instrumento em um momento de psiquê que ao mesmo tempo, mesclara "fúria" e "desequilíbrio": Um invento que revolucionou o mundo dos transportes, agora transformado em arma mortal: O AUTOMÓVEL...

Pessoas e bicicletas que até então circulavam tranquilamente pela Av. José do Patrocínio no bairro Cidade Baixa em Porto Alegre pedalavam em um manifesto pela "PAZ NO TRÂNSITO" e "PELA DIMINUIÇÃO DO VOLUME CAÓTICO DE CARROS NAS RUAS", protesto que, com toda a razão transformou nossas vias públicas abarrotadas de carros  na atualidade em uma verdadeira "MASSA CRÍTICA", nome atribuído ao grupo de ciclistas que periodicamente reúne-se em Porto Alegre, (assim como em outros em locais do mundo existem eventos semelhantes com a mesma proposta), esse mesmo grupo organiza passeios e "pedaladas" sempre preconizando à paz no trânsito e a utilização da bicicleta como meio eficiente, não poluente e saudável para o transporte e lazer), “indiferente e estático" o relógio da farmácia marcara pouco mais de 19:00, o pôr-do-sol nunca imaginara que o "destino" de forma paradoxal reservaria segundos mais tarde aos ciclistas e suas bicicletas:

Destroçadas ao vento, como em um ensaio (de bestialidade) digno de "Duro de Matar" ou semelhante às cenas dos "atentados a bomba" no Oriente ao qual diariamente estamos acostumados a acompanhar já sem muito espanto nos noticiários, naquele "flash" de momento vidas estavam em jogo através de uma atitude insana de um motorista que, por motivo banal atenta sobre a vida do grupo, avançando seu carro sem piedade e atropelando dezenas de pessoas que, graças a seus capacetes e pela "Divina Providência" não tornaram-se vítimas fatais e motivo para estatísticas no já, (“abarrotado” número de processos judiciais em trâmite ou arquivados relativos ao obituário por mortes no trânsito) portanto, abrindo "ferozmente" espaço com seu carro  entre vítimas sendo jogadas ao "alto" assim como suas bicicletas se desfazendo em ferragens  e destroços fugindo do flagrante, abandona seu veículo ou “arma mortal” em bairro próximo e desaparece...

Tal funcionário público do BC, ao qual pagamos o seu salário através da tributação de nossos extorsivos impostos, apresenta-se com seu advogado alegando legítima defesa causada na realidade por uma simples e eventual discussão no trânsito com um ciclista, mesmo que o passeio tenha ocorrido sem o conhecimento da EPTC, a esse indivíduo pode ser lhe dado o direito de sair tentando aniquilar pessoas simplesmente porque a referida avenida estava “congestionada” pelos manifestantes?

Seria esse indivíduo fruto psicótico da "perda de referenciais e da fragmentação social" no chamado "Mal-Estar da Sociedade Pós-Moderna" ao qual o sociólogo polonês Bauman defende???

Todos nós saímos à rua como que num rápido reflexo para ajudar os feridos com o que tínhamos ao nosso alcance, o "caos" ao redor: Desespero, gritos de dor, pessoas desorientadas, muitos chegaram impotentemente à correr atrás do agressor, mãos na cabeça, perplexidade, bicicletas retorcidas, ciclistas e desconhecidos socorrendo, “dando a mão” ao levantar o companheiro machucado no asfalto, em momento de tamanha abominação ao mesmo tempo via-se a prova da solidariedade e amor ao próximo lembrando até certo dualismo entre as forças do "bem e do mal" ...

Uma das poucas coisas que estavam ao meu alcance fora entrar no cenário e uma das primeiras visões e ações ao qual me defrontei fora "conter" entre os braços  fortemente e acalmar uma jovem mais uma vítima caída ao chão, sem muitas escoriações, mas em "choque" debatendo-se frente ao cenário de terror ao qual sua razão não aceitara, enquanto isso meus colegas de serviço tentavam levantar ou ajudar outros feridos assim como muitos voluntários, moradores e um enfermeiro entre outros ciclistas também o fariam até as ambulâncias da SAMU chegarem  e socorrerem as vítimas....

Fico honrado assim como meus colegas de trabalho pelas saudações e aplausos do movimento "MASSA CRíTICA", ao qual ficará sempre em minhas lembranças e à todos nós da farmácia no PROTESTO PELA PAZ da última terça 01/03, onde centenas manifestaram apoio com sentimentos de solidariedade e busca pela justiça nas principais vias de Porto Alegre, assim como o próprio evento tornou-se, apesar de trágico uma página da História da Cidade, portanto, que esse acontecimento "bizarro" sirva como instrumento de alerta às autoridades para o rigor na formação de condutores hábeis e equilibrados, aptos à possuírem carteiras de habilitação e mais ainda, que contribua para a difusão do movimento "MASSA CRÍTICA" avançando com sua "missão" social agregando cada vez mais adeptos a causa a que defende e PARA QUE A JUSTIÇA SE CUMPRA condenando esse indivíduo que à partir desse momento já não pode ser mais ser classificado como "homo sapiens sapiens" devendo trocar seu paletó de burocrata por uma “bela camisa de força" no manicômio judiciário...


2 comentários:

  1. Acima de tudo: Vivemos em uma democracia, em que o direito de ir e vir são inalienáveis.
    Algumas questões referentes a esse acidente não estão devidamente esclarecidas, e percebo que não o são deliberadamente. Um conceituado jornal referiu-se ao acidente da seguinte forma: “Ricardo Neis, que tem 47 anos, é funcionário do Banco Central, fugiu sem prestar socorro aos feridos.”
    Ora, essa atitude é perfeitamente legal(segundo CTB) em seu caso, já que segundo o senhor que estava dirigindo, seu filho de 15 anos e algumas testemunhas ele foi ameaçado. “Um homem que não quer se identificar dirigia o veículo que estava atrás do carro do bancário. Ele conta que também teria sido ameaçado. ‘Eles estavam querendo depredar o meu também. Se ele não fosse, eles iam linchar o cara’, conta.”
    Você pode dizer que não, mas como explicar seguinte fala: “A gente viu o carro escapando. Então eu e mais uns amigos que ainda estávamos em condição de pedalar, a gente seguiu atrás dele, tive que desviar de pessoas caídas, no chão, de bicicleta, jogadas." Tais palavras foram ditas por um dos manifestantes. Quem não se sentiria ameaçado?
    É importante reconhecer que o agravante não poderia prestar socorro à vítima sem risco pessoal.
    As manifestações são legítimas, isso é inquestionável, mas é direito de todos nós podermos ouvir todas as partes.

    12 de março de 2011 16:19

    ResponderExcluir
  2. Caríssima Fernanda agradeço o post e seu interessante fomento em contribuição à esse assunto tão polêmico, com certeza vivemos em um Estado "laico" sob o contratualismo do "Estado de direito", não arriscaria comentários relativos à questões jurídicas até por não dispor de alçada na área, mas ao afirmar que:

    “Um homem que não quer se identificar dirigia o veículo que estava atrás do carro do bancário. Ele conta que também teria sido ameaçado. ‘Eles estavam querendo depredar o meu também. Se ele não fosse, eles iam linchar o cara’, conta.”

    Porque o motorista (suposta testemunha) que estava atrás, também ao sentir-se ameaçado não seguiu os passos do Sr. Neis "escapando" com seu carro por cima dos ciclistas na sequencia dos fatos???

    E mais, lembre-se que a Av. José do Patrocínio possui diversas vias transversais e ele ao invés de desviar seu curso da "suposta" ameaça,(que aparentemente configurou-se somente em uma simples discussão de trânsito) não entrara o mesmo com seu carro em uma via transversal, mas ao contrário avançou e acelerou velozmente antes do cruzamento atingindo com ferocidade a "massa" de ciclistas???

    Gerando finalmente as cenas chocantes de terror e pânico que vc mesma deve ter acompanhado, assim à partir desse momento confirma-se de fato que os manifestantes saem correndo atrás do carro do Sr. Neis de maneira desesperada(atônitos
    pela brutalidade do fato)à pé e de bicicletas..

    Exatamente é isso mesmo que a Sociedade aguarda, a apuração da tentativa de homicídio
    coletivo "ouvindo todas as partes" assim como a apuração dos fatos pelo Poder Judiciário e pela Perícia, para que a Justiça se faça e os responsáveis se comprovada a culpa após o julgamento sejam punidos na forma da Lei...

    ResponderExcluir